terça-feira, 28 de setembro de 2010

Parabéns, Sebá!



Hoje no
sso anfitrião completa 32 anos de vida e obviamente não poderíamos deixar a data passar em branco. Ele nem nos conhecia, sabia que éramos apenas duas malucas (em suas próprias palavras) e, em um mês que ficamos em Luanda, foi nosso guia, ajudou com entrevistas e foi, claro, muito entrevistado. “Fiquem à vontade, se quiserem a biografia agora ou depois, vocês que sabem”, disse quando chegamos. Resolvemos subir para o quarto - recém pintado para nos receber - e descansar. Essa foi a segunda vez que recebeu estudantes brasileiras. Sara Manera, jornalista baiana, esteve lá em 2007 e foi quem nos colocou em contato com ele.

Com o passar dos dias fomos descobrindo sua biografia e sua maneira de ver o mundo realmente valem a pena ser contadas. Sebá morou na Rússia e na Argélia quando o pai, que trabalhava como motorista no governo angolano, se mudou a trabalho. Fala francês, russo e inglês fluentes, já trabalhou como segurança e outros bicos, hoje é designer. Começou em 1999, na Link, empresa do publicitário e fotógrafo brasileiro Sérgio Guerra, quando a única coisa que sabia fazer era desenhar. Há três anos montou seu Laboratório Multimídia, onde desenvolve projetos gráficos e em vídeo nos seus Macintosh.

A generosidade dele ficou evidente quando nos disse antes mesmo de chegarmos a Angola: "Não faço serviços de hotelaria, vocês são minhas convidadas". Mas essa generosidade era mais sutil, não menor, quando nos segurava pelo pulso para atravessar as ruas loucas de Luanda. Um irmão-pai que nos ligava para saber se estávamos bem e ficava preocupado se demorávamos. Sua generosidade ensinava em dobro, quando depois de virar a noite trabalhando em um projeto, ele sentava e nos falava histórias da sua vida e de Angola. Contou com detalhes envolventes como estava no meio da rua quando houve um conflito armado no centro de Luanda em 92; que ele foi uma criança se metia em brigas e tinha poucos amigos na escola da Rússia, difícil de imaginar isso num sorriso que transmite muita tranquilidade.

Sebá tem planos vir ao Brasil o quanto antes para fazer cursos na sua área – que não demore muito! – e também de mandar sua família para morar aqui ou na Namíbia, países que considera mais tranquilos. Ele quer vir, mas só de passagem. Sente saudades do seu país quando ainda está a caminho do aeroporto, mas também não quer perder a fase de novas oportunidades pela qual o país passa: “Alguém tem ficar aqui para ganhar dinheiro”.

Talvez sem querer, Sebá nos ensinou tanto de Angola ao nos deixar entrar um pouco na sua vida e nos permitir ver a dificuldade e a frieza com que é preciso lutar para viver lá. Mas também nos mostrou um orgulho de quem conhece sua força. Com serenidade, ele critica a realidade e certas tradições, mas nunca despreza seu país.

Vida longa, Sebá!

Jú e Jô


Foto: Primeiro brigadeiro que Sebá provou, com leite condensado (Moça, da Nestlé) comprado em Luanda.


Desenho: Jú aos 30 anos. Crédito: Sebalopdel

domingo, 12 de setembro de 2010

Paradas de sucesso nas candongas

Duas letras que não saem de nossas cabeças. As músicas falam muito do cotidiano de Luanda e fazem sentir saudades de pegar candonga com o som no último volume.










Juliana

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cardápio em Angola

Uma das perguntas que mais nos fazem sobre Angola é o que comíamos lá.

Pois bem, come-se bastante arroz e feijão, mas o feijão é branco e cozido com óleo de palma (como chamam o azeite de dendê). No início achei gostoso, mas logo foi enjoando, porque é pesado e, para mim, só dá para comer de vez em quando mesmo.

A grande estrela da culinária angolana é o funje. É um prato simples: água e farinha de bombo (mandioca/aipim) ou de milho e podem dizer que é um pirão. Só que não é feito em um pratinho ou em uma panelinha. As mulheres sentam no chão e mexem aquele panelão por um bom tempo até que fique no ponto. A impressão que dá é que tem uma goma junto.

Eu já tinha provado funje em uma festa angolana aqui no Brasil, antes de ir para Angola, e não gostei, nem desgostei. Lá, minha primeira experiência foi em um restaurante à quilo, um dos únicos de lá e com preço razoável. Coloquei um punhado com arroz, salada e frango ensopado, mas não gostei e deixei de canto.

Depois me disseram que não se come funje com arroz. “Não combina!”, insistia Sebá. Acho que essa não é a preocupação dele, mas no aspecto nutricional seria exagero mesmo comer os dois, já que ambos são fontes de carboidrato.

A graça do funje está molho que colocamos por cima, geralmente de peixe. Depois, nosso amigo Kota 50 me explicou que não se mastiga o funje e sim engole direto direto. Foi uma sensação engraçada, mas mesmo assim nãoficou delicioso para mim.

Em uma festa provei o calulu de peixe. É como um patê, com couve bem picadinha e com peixe tudo picadinho.

Comem muita muita mandioca, batata doce, alimentos que temos no brasil. mas que, pelo menos aqui em Floripa, não observo as pessoas consumirem sempre.

Na rua vendem mandioca e banana assada. Também tem várias senhoras com umas churasqueirinhas a assar coxas de frango e fritar ovos. No meio da muvuca,vão preparando e colocando de canto, até que venham os clientes. Mas não provamos nada que era vendido na rua, a não ser frutas das zungueiras.


Provamos o delicioso peixe assado na Chicala, região famosa pelos pratos que são servidos lá. Foi uma recomendação que nos fizeram antes de chegarmos a Luanda e que fomos conhecer. Peixe com farinha e um mollho de cebola para acompanhar. Simples e delicioso.

Confesso que também comemos Bob’s. Muito mais caro que aqui. Uma lanche completo sai cerca de US$ 16,00 (quase 30 reais!). É menos gostoso que aqui, para quem gosta de fast-food. Lá não tem Mac Donalds, então o colonialismo culinário norte-americano vem via franquia brasileira. E confesso que o milkshake de Ovomaltine me fez lembrar de casa.

Joana Neitsch

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Congolenses

O mercado dos Congolenses é outro local de distribuição das mercadorias que chegam de fora. Nada comparado ao mercado Roque Santeiro, nem mesmo parecido. Na verdade, é apenas uma rua de chão batido, perpendicular a uma avenida muito movimentada. Lá é possível encontrar zungueiras (como são chamadas as vendedoras de calçada) vendendo cremes, xampú, frutas, verduras, talheres, calçados.. comprados em armazéns da região e mesmo no Roque. Esse foi um dos destinos de um executivo brasileiro, gerente financeiro da Brasil Foods na África, por conta de reclamações de clientes devido à maneira como os alimentos estão sendo vendidos.

Conversar com as zungueiras não é fácil. E não é porque elas não queiram falar. Gomes teve que ser tradutor de português brasileiro para português angolano, a única vez que aconteceu isso em Luanda. Apesar do nome congolenses, as pessoas que moram nessa região não nasceram no Congo. Eles moravam na fronteira com esse país. Por conta de conflitos foram retirados de lá e o governo angolano colocou-os nesse bairro.

Outro problema é que, enquanto os vendedores te dão atenção, estão de olho na chegada da polícia que os expulsa e leva toda a mercadoria. Tirar as vendedoras das ruas é uma das medidas de “higienização” do governo. A polícia passou, deu um susto, mas não fez nada dessa vez.

Protegida pelas grades de um condomínio antigo na mesma rua, Lorença Francisco, 37 anos, há 15 é quingla - compra e vende dólares - além de saldo para telemóvel. Já foi presa uma vez, ficou três dias, até que pagou fiança e foi liberada junto com seu dinheiro que sobrou. Ela adora roupas brasileiras, mas pagar 30 dólares por uma blusa não dá, “então compro as de 300 kwanzas”.

O terreno do condomínio formado por dois prédios antigos e semi cercado por grades é que abrigava todos os comerciantes da região. Mas as reclamações do síndico fez com que quase todos fossem colocados para fora.

Além das quinglas, como Lorença, os meninos que fazem as unhas deles e delas também se instalam seus banquinhos ali. Se as mulheres dominam a zunga, são os homens que fazem o serviço de manicure. Severino, 18 anos, está no ramo há seis. Cobra 300 kwanzas para colocar unhas postiças e pinta-las. Nos salões de beleza, cobra-se dez vezes mais. Vanda Pereira, que quer estudar Informática no Brasil, prefere vir até os Congolenses: “É mais barato e eles não acham ruim quando pedimos para ajeitar se não ficou bom, as mulheres já fazem cara feia”.


Juliana


Fotos: Do Porto para as ruas de Luanda: nenhum problema com o comércio informal

Lorença, protegida da polícia pelas grades.

Crédito: Juliana


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Roque



O mercado do Roque Santeiro era o lugar que mais ouvíamos falar antes de ir para Luanda, não podíamos voltar sem conhecê-lo. Esse é o maior mercado ao ar livre da Angola, um dos maiores do mundo e teve o nome inspirado na novela brasileira. A maioria dos brasileiros que conhecemos em Angola nunca foi ao Roque e também há angolanos que evitam e não gostam de ir para lá.

Na véspera, Mavanda, namorada do Seba, nos descreveu com minúcias os quatro assaltos que a mãe dela sofreu no mercado. Com tanto terrorismo acabamos deixando a máquina fotográfica em casa e na última hora preferi deixar a aliança também. Fico me perguntando até que ponto isso é verdade, pois também há estrangeiros que vêm ao Brasil e ouvem avisos desse tipo.Mas dizer perigoso é um adjetivo um tanto simplista para um universo que tem lá. Se em Luanda tudo parece visto com uma lupa, sejam encantos ou problemas, no Roque a lupa amplia-se ainda mais.

Desafiamos o Seba: ou ele nos levaria ou iríamos sozinhas. Adivinhem o que o cuidadoso anfitrião fez?

Na chegada, a vista que temos lá embaixo milhares de barracas com teto de lona ou do material que houver disponível. Descemos a pirambeira e na maior parte dos corredores ou ruelas é preciso andar em fila indiana. Chitãzinho e Xororó foi a primeira música que ouvimos. Muita gente, gritaria e correria, como muitas feiras populares que devem haver pelo mundo (o mais próximo disso que eu tinha ido era o Beco da Poeira em Fortaleza). Mas o que impressiona no Roque é o tamanho e a variedade.

Lá encontramos tecidos africanos e todo tipo de produto que um bom camélodramo oferece: bolsas, brinquedos, doces, cosméticos, tênis, eletrônicos marcas norte-americanas made in china a dar com o pé. Tem também fato (como chamam os ternos) e gravatas, vestidos longos de festa. Toda a cor e cheiro das feiras com frutas e verduras. E materiais de construção. Congelados e enlatados. Não nos ofereceram, nem vimos, mas quem procura serviços sexuais e drogas, para consumir ali mesmo, também encontra. Tem muito ouro e bijuteria. Bacias coloridas. O chão é terra, tomate espatifado, prego, pilha, farinha do fungi, pegadas de Havainas...

Fomos rápido. O Seba disse que não dava pra ficarmos parados muito tempo em um só lugar e dar mole para os assaltantes. Éramos a únicas pulas ali. Imagino que a cara de estranhamento que vi neles não devia ser muito diferente da minha. Nos achavam fora de lugar e eu tentava entender tantos mundos naquele lugar. Impossível eliminar minha mentalidade de estrangeira, fico vendo tudo com curiosidade, até poesia. Aí me chacoalho e me dou conta que é o sempre deles. Uma luta por sobrevivência. Se agacham ali mesmo pra comer fungi com peixe. Em uns cantos das barracas mulheres gordas cochilam. Em outros mães fazem as tranças nas filhas. Nos botecos improvisados jovens ficam azarando e se embebedam.


Ali também é um dos pontos de abastecimento das zungueiras. Compram em atacado os produtos para venderem nas calçadas. Muitos produtos que exportadores engravatados, negociam nas salas limpas e frescas de ar-condicionado são escoados por ali. E muita gente esperta que roda Luanda toda a procurar melhores preços, sabe que há produtos que só tem ali no Roque. Não adianta ir a outras feiras, nem a mercados, nem mesmo ao shopping. Compramos panos africanos coloridos feitos na China. Angola não tem indústria têxtil e os tecidos que vêm do Congo, que é ali ao lado, são mais caros que os chineses. Saiu muita tinta na primeira lavagem e o tecido ficou mais macio, vamos ver nas próximas.


Agora o Roque está de mudança. Vai para o novo mercado de Panguila, a 18 quilômetros de Luanda. Se vai dar para todos os vendedores irem para lá e se todo esse universo também vai ser transferido, só quando gente voltar a Angola para ver.




Foto: Vendedora de carvão no Roque.

Crédito: João Fellet - Jornalista, faz parte do coletivo Tás a ver e vai lançar um livro sobre sua experiência em Angola e outros países africanos no próximo ano. Também nos deu boas dicas antes de viajarmos.


Joana Neitsch


domingo, 15 de agosto de 2010

Nossas queridas miúdas


Foram essas duas criaturinhas que nos acordaram diariamente aos berros das brincadeiras, dos choros ou com uma suave abertura da porta e a pergunta: "Já acordaram?". Às vezes invadiam o quarto pedindo: "Dá-me teu chocolate...dá-me tua bolacha", também com abraços e pulos na cama. Outras vezes pedíamos para dormir mais um pouco e elas saíam para brincar.

A São (Conceição), mãe delas, acorda cinco da manhã para trabalhar na recepção da British Petroleum (BP) e as miúdas não aguentam muito mais tempo na cama. Raina tem três aninhos e é um furacão, esperta que só. Mexia em todas as gavetas e perguntava o que era tudo, desodorante, creme, absorvente. E pedia: "dá só...". Riu muito da minha meia furada. Outro dia, quando viu outra, sem rasgos, avisou: "Vai furar, vai furar". Quando chegamos em casa mais tarde, exaustas, tiro meu sapato e ... ela acertou!

Janina, de cinco, é mais discreta e sabe a hora de se acalmar. Mas está longe da apatia. Comanda muito bem as brincadeiras. Ela já tem idade para ir à escola, mas o horário de trabalho da mãe dificulta a frequência ao colégio. Mesmo assim, ela sempre pede que lhe passem tarefas e sente falta das aulas.

As duas estão o tempo todo cantando e dançando. Além das cantigas infantis, sempre lembravam de um grito de torcida angolano para o Campeonato Africano das Nações (CAN) que não consegui achar o restante da letra na internet e que elas também não sabiam, mas continuavam harmoniosamente. "Angôôôôôôôla... palaaaanca". Algumas vezes tentei acompanhá-las na dança, mas, com toda minha habilidade, participava só quando era de roda. Com esse tamanho, elas já têm todo o jingado do semba, kizomba e logo chegam no kuduro.
Foto: A dona da casa e suas meninas. Crédito: Jô




Juliana Passos

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Músico angolano fala do intercâmbio do seu país com o Brasil

Em nossas andanças por Luanda conhecemos muito brasileiros que investem e se aventuram por lá. Mas também procuramos angolanos que têm uma relação mais próxima com o Brasil. Foi assim que tivemos a oportunidade de conhecer o músico Filipe Mukenga.

A relação dele com a música brasileira vem desde os anos 80, quando Djavan gravou sua música Humbiumbi. De lá para cá, Mukenga fez parcerias e teve músicas gravadas por outros artistas brasileiros como Maurício Mattar, Fundo de Quintal, e em seu último disco Martinho da Vila, Ivan Lins e Zeca Baleiro.

Há quem ouça Filipe Mukenga e considere sua voz e a maneira de cantar muito semelhantes a Djavan ou Milton Nascimento. Ele explica que a forma como canta vem de longe, antes mesmo de conhecer esses cantores, mas os admira muito. Suas preferências também passam por Gilberto Gil, Martinho da Vila, Emílio Santiago e Simone.

Mukenga lembra que as relações culturais entre os dois países não são de hoje. A música brasileira está há séculos ligada com Angola, sua matriz vem de lá. Em suas recordações, canções do Brasil sempre fizeram sucesso. “Era miúdo e escutava Angela Maria. Nós conhecemos Pixinguinha, Luiz Gonzaga”.

Ainda que tenha feito parcerias com muito brasileiros, o músico acha que o Brasil se fecha e não deixa que outras culturas entrem. “Vocês conhecem muito pouco de Angola. Conhecem Liceu Vieira Dias, Elias de Aquimuerto, Lurdes VanDúnen, N’gola Ritmos”? Cita grandes nomes da música angolana, que pouco se ouve falar, para não dizer nunca, no Brasil.“Há necessidade de um intercâmbio maior. Para que possamos nos conhecer mais. O Brasil tem tanto a ver com África, sobretudo com Angola, mas se fecha. Mas música americana entra sem pedir licença”.

Na terra onde as candongas circulam ao som de kuduro, o cantor e compositor lamenta: “As pessoas estão mais voltadas para música que as põe a saltar e não transmite nada”. E tenta explicar: “Talvez o motivo seja a vida agitada, o estresse. É um fenômeno em todo o mundo”. Mas para Mukenga, a primeira preocupação não é fazer música para dançar, ainda que reconheça que algumas de suas músicas perfeitamente dançáveis.


Como acontece com muitos artistas brasileiros, Mukenga é mais reconhecido no exterior que em sua terra natal. Para ele, seu trabalho “foge ao habitual” e não se preocupa com grande aclamação, acredita na música como “veículo de transmissão de conhecimento e cultura”. Seu estilo é o que chama de Nova Música d’Angola, rica não só no conteúdo, mas no ponto de vista da harmonia, com acordes invertidos, dissonâncias e características do jazz.

Seu quarto CD, o mais recente, foi lançado em setembro de 2009 e teve 5 mil cópias, esgotadas rapidamente. E ele está a espera de uma tiragem de mais 10 mil discos. O disco gravado no Brasil e produzido por Zeca Baleiro. O selo é da Editora Ginga, do empresário brasileiro Raymundo Lima que está há 10 anos em Angola.

Quando chegar a nova remessa, a sessão de autógrafos será no Largo Primeiro de Maio, diante da estátua do ex-presidente Agostinho Neto. Em Luanda, lançar um CD é passar pelo Largo da Independência. Como isso não aconteceu, há quem diga que o trabalho ainda não foi lançado.


Com 46 anos de carreira, Filipe Mukenga não consegue viver de sua música. Trabalha em um cargo comissionado, prestando consultoria ao Ministério da Cultura.

O músico planeja vir ao Brasil ainda esse ano, provavelmente em setembro.


Joana Neitsch

sábado, 7 de agosto de 2010

O trabalho continua em casa

Duas semanas de Brasil se passaram e aquela sensação de felicidade por estar de volta que imaginávamos sentir, passou longe. Um mês passou tão rápido que se não fosse os contatos que fizemos para avisar que chegamos bem e a presença uma da outra, não seria mais que um sonho.

Impressões à parte, o blog não vai parar porque voltamos. Fazê-lo para usar só um mês não faria sentido. Ainda há muito o que comentar, contar e organizar o material da reportagem e o blog nos ajuda nisso.

Àqueles que tem nos acompanhado, não nos abandonem. Esse é um momento importante de crítica e sugestões. Novos e “velhos” leitores, sejam bem-vindos.


Foto: Despedida com os amigos angolanos. Crédito: Sebá


quinta-feira, 22 de julho de 2010

Úlltimo Dia (?)

Último dia em Angola. Tá tudo escuro. São 18h30 da tarde, a luz caiu, tô sozinha em casa porque hoje a Jú e eu nos dividimos para render mais. Por sorte o computador tá com bateria. Também não tem água.

Hoje de manhã fui à loja da Cia aérea TAAG confirmar nossas passagens. Sim! Aqui tem que ser pessoalmente. Fiquei uma hora só esperando. Quando fui atendida, a moça me falou que minha reserva tava cancelada, porque ainda não havia sido feita a confirmação e a minha classe (Econômica, claro) já estava cheia. Pra Jú tava tudo certo. Eu poderia resolver meu problema pagando um up grade para uma classe mais cara ou entrar pra lista de espera pro vôo de amanhã mesmo ou para o próximo, que é segunda (e também já está lotado).

Não me importaria em ficar mais um fim de semana, até gostaria. Mas fiquei nervosa porque meu visto vence em uma semana e é um saco se programar e ter que ficar alterando os planos. A moça dizendo "vamos esperar a resposta". Aí dramatizei: “É o seguinte, não tenho dinheiro para pagar up grade, meu visto vence dia 30 e terça, 27, é meu aniversario e minha família está a minha espera. Não sei se me informaram o procedimento errado, mas não minha culpa, a passagem tá paga e preciso viajar, tenho direito a um lugar”! Embarguei a voz e acho que ela se comoveu.

Foi lá dentro, voltou e disse que tava tudo certo, é só irmos fazer o check-in 4h30 da manhã. A partida está prevista para 8h30. Não me perguntem porque tão cedo, mas não vou arriscar, pretendemos estar lá no horário. Bem que haviam me falado dos rolos dessa TAAG. E pra quem reclamar, se a cia. aérea é do governo angolano?

Hoje também foi o primeiro dia em que andei sozinha de candonga. Fui lá no Gamek fazer uma entrevista. O bairro é meio favelão e me dei conta que nunca andei sozinha em um lugar tão pobre. É que nunca houve necessidade ou oportunidade. Mas não fiquei com medo, até porque pobreza não é sinônimo de perigo. Fiquei atordoada, a rua é movimentada e tava cheia de obras buracos. Pedi ajuda pras zungueiras e cheguei onde precisava. Foi engraçado, me perdi um pouco, me enchi de poeira mais que média e contei com a solidariedade das pessoas pra chegar onde precisava.

A Jú foi ao Congolenses e ao São Paulo, regiões bem movimentadas, pra não dizer tumultuadas, cheias de vendedores ambulantes. O Gomes, tio do Seba, foi com ela, assim como foi comigo na TAAG de manhã.

Nossos planos pra hoje à noite são comprar pizzas em uma pizzaria brasileira e nos despedir do Seba e seus amigos, da São (dona da casa em que estamos) e das suas filhas, nossos amores aqui, Raina e Janina. Mas continuo no escuro sozinha. Quer dizer, com a companhia da Úrsula, no gtalk enquanto a bateria do computador não acabar ou não der pau na internet.

Passei o dia pensando em um post de despedida, cheio de impressões e emoções, mas esse acabou sendo mais um diário de desabafo.

Essa última semana tem sido de perrengues e aventuras para confirmar que levamos uma vida tipicamente angolana. Como vou embora amanhã (pretendo, pelo menos), acabo dando risada de tudo. Mas penso e me dói, que vou voando pro meu país e essas pessoas – que não vejo mais como distantes africanos, mas amigos angolanos – vão continuar nessa realidade de não poder contar com o básico, de ter que se reiventar pra resistir a cada dia.

A Jú e o Gomes chegaram! O gerador foi ligado, já tem luz pelo menos. Hora de ir ver as pizzas.


Joana Neitsch

terça-feira, 20 de julho de 2010

Domingo de praia

Como em Florianópolis, as opções de lazer em Luanda são principalmente conhecer suas belezas naturais. Quanto mais longe se vai pelo litoral da província, menos angolanos e mais expatriados. Ainda não há muita preocupação com o turismo por aqui e os estrangeiros que visitam esses lugares são aqueles que vivem aqui em função do trabalho. Uma das paradas obrigatórias no caminho das praias é o Miradouro da Lua, com falésias a perder de vista. Algo realmente fantástico.

Da estrada também podemos ver praias quase desertas. Se durante o Cacimbo a cidade amanhece invariavelmente com o céu entre nuvens, o pôr do sol é lindo demais, dizem que mais bonito que no verão. No final da tarde de um domingo, paramos em Palmeirinhas. Ventava e tinha um ar gelado, uma temperatura agradável de todas as tardes. Não deu para cair no mar, mas o visual compensou.

Juliana Passos

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Água? Só por hoje..

Dias desses fomos comprar água mineral . Trouxemos uma marca e quando o Seba viu disse:

“Mas o que é isso? Querem morrer”?

Para ele aqui em Angola, quanto mais caro melhor e marcas conhecidas dão alguma segurança. Citou como exemplo o caso em que descobriram um senhor que pegava água da rede normal ou comprada de um caminhão pipa e embalava como água mineral.

“Vocês vão voltar pro Brasil e em menos de um mês fazer um check-up. Mas eu vou ficar aqui e tenho que me cuidar. Se inventar de ir ao médico sai uns U$ 1000,00”, desabafou o Seba.

Sempre tomamos água mineral e também a usamos para escovar os dentes. Houve quem nos dissesse, nos conselhos pré-viagem, que isso já seria um exagero. Mas, além da água não ser encanada e ficar exposta no balde, a única alternativa para escovação nos últimos dias estava sendo a água mineral.

Por duas semanas não veio água, mas o reservatório da casa estava nos mantendo. Esses dias tive que me curvar toda, pendurada na caixad`água, pra tirar água lá do fundo. O banho de canequinha que era um sacrifício, tornou-se motivo de alegria. Afinal, conseguimos água!

Curioso mesmo foi ver, no dia em que o estoque de água se esgotava no bairro, os chafarizes da praça Primeiro de Maio, a poucos quilômetros daqui, jorrarem água.

Graças à dona Lídia, que trabalha na casa do Seba, quase nunca ficamos na mão. Ela sai de balde na cabeça pra buscar água nas bicas públicas da redondeza.

A água voltou, mas é bom ir poupando para não viajar sem banho. É, não se assustem, mas só temos mais três dias aqui em Luanda!


Joana Neitsch

sábado, 17 de julho de 2010

Apagão

Quando a luz volta a criançada grita, faz barulho na rua ou dentro dos quintais.
Parece dia de festa, parece novidade.

Mas não é. A luz falta sempre. Não tem dia pra apagar, mas some em muitos dias.
Sempre se sabe que vai voltar. Nunca se tem certeza de quando.

A rua não tem iluminação pública, mas muitas casas têm gerador, mesmo assim, nem sempre há gás.

Quando a luz volta, nem é preciso entrar pra conferir os aparelhos.
As lâmpadas reacendem sozinhas e a criançada berra e comemora.

E o grito não é por uma conquista, mas pela insistência.


Joana Neitsch

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Candongando para Talatona



Antes de virmos para Angola recebemos todo tipo de conselho. Sobre o transporte público, fomos avisadas que quase não há autocarros (como chamam os ônibus). A principal alternativa é a candonga, que os angolanos chamam de táxi, mas são peruas brancas com azul piscina, já citadas aqui, dirigidas por particulares, nada têm a ver com o governo.
Alguns alertaram: não ande de candonga em hipótese alguma! Diziam que podíamos ser assaltadas, que não dá para saber o roteiro, que um tumulto para embarcar, que os homens podiam se aproveitar de nós por causa do aperto nos bancos e que não é aconselhado pela Embaixada Brasileira, nem pela ONU. Outros mais aventureiros, principalmente jornalistas, diziam que dá para andar sim, é tranqüilo, só prestar atenção.
Nossos primeiros passeios de candonga foram com amigos angolanos. Mas essa semana precisamos sair só as duas. Na primeira vez fomos ao centro, perto de casa, em uma rota que já conhecíamos. No dia seguinte precisamos ir para Talatona. Um município vizinho, mas que nem se nota a fronteira (até porque as divisões territoriais de Luanda são bem confusas). Talatona merecerá um postagem à parte, mas é bom dizer que, além de longe, é um bairro mais nobre, onde há muitos condomínios fechados, sedes de empresas e o único shopping da cidade. Para quem é de Floripa, da para estimar a distância, como entre o centro da Ilha e a Palhoça. Com trânsito caótico pode levar horas.
Pois bem, acordamos 6h30 e às 7h15 da manhã, pegamos a primeira van. Os cobradores ficam na calçada gritando o destino: “Aeroporto, Aeroporto”; “Maianga, maianga “; “Zamba II, Zamba II”. Com certo esforço se descobre qual carro vai para o nosso destino. Puxam as pessoas da calçada. Só sai quando estiver lotado e nisso ficamos esperando uns 20 minutos. Sorte que uma angolana lembrava "Moço, tem transito, vamos chegar atrasados". Em cada fileira de bancos se apertam umas quatro pessoas e vão mais duas com o motorista na frente.
A trilha sonora tem kuduro, semba, pagode e sertanejo brasileiros, a Shakira cantando o tema da Copa e até MPB! As pessoas que usam são a grande maioria da população, senhoras indo trabalhar, levando os filhos à escola, estudantes e alguns pulas mais aventureiros ou necessitados. Realmente algumas entram bem apressadas, principalmente quando há muita gente para poucos lugares. Mas nada que não seja visto em ônibus ou metrôs do Brasil.
A vantagem é que os motoristas costuram o trânsito como podem para vencer os congestionamentos. Melhor não pensar nas conseqüências que isso pode ter, nem na última vez que foi a manutenção.
Fizemos baldeação em pontos poeirentos, perto dos musseques (como chamam as favelas aqui). A mesma gritaria para atrair passageiros. Contamos com a ajuda dos cobradores que nos davam informações antes mesmo pedirmos e com pessoas nos pontos que no meio do tumulto foram ágeis em no dar informação.
Chegamos a Talatona após três candongas. Quase no portão da multicnacional, tirei o chinelo de dedos, limpei a poeira dos pés com algodão, calcei o salto, ajeitei o cabelo e chegamos 8h55 para a entrevista que seria às 9h. Me sentia uma vitoriosa!
Na portaria, descobrimos que era o local errado, tomamos mais uma candonga e por fim um carro turismo (carros pequenos, sem identificação, que oferecem transporte alternativo). Meia hora de atraso, completamente tolerável para Luanda que tem tradição de atrasos por conta do trânsito. Após quatro candongas, um carro turismo e 1100 KW (equivalente a 11 dólares) chegamos a nosso compromisso. Até nosso amigo angolanos duvidaram que conseguiríamos. Tem muito brasileiro que mora aqui há anos e nunca andou de táxi e nos olha com um misto de admiração, uns até nojo. Outros confessam que queriam andar para ver como é.
Não cabe slogan “rápido, confortável e seguro”, mas dá para dizer que é ágil, divertido e um bom ponto para enxergar Luanda.
Joana Neitsch

Fotos:
1. Candongas na Mutamba, no centro da cidade
2. Candongas no ponto perto da nossa casa, onde começou a viagem para Talatona

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vizinho

Hoje de manhã na saída de casa, para mais um dia de entrevistas e imprevistos encontramos este garotinho escovando os dentes.





Juliana Passos

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Aqui somos pulas!

Nunca me considerei muito branca, sou a típica mestiça, cara de brasileira. Filha de negra, com descendente de alemão, o mais europeu é o sobrenome - Neitsch. Por isso, passo batido em quase todas as regiões do Brasil. No verão, com um bom banho de sol, sou mulata. A Jú vai pelo mesmo tom.

Em Angola, somos brancas ou pulas, como dizem aqui, gíria que vem do tempo dos portugas. Passamos pela rua e nos chamam “Samantha”, por sermos brancas como a protagonista de uma novela mexicana que passa aqui.

Nossos amigos angolanos dizem que não têm preconceitos com brancos. Mas, segundo eles, os mestiços são terríveis, são arrogantes, se excluem, se acham melhores porque geralmente são descendentes de portugueses. Então para não me ofenderem, garantem que não sou mulata, mas branca mesmo. Esses dias chamei de mulata uma mulher de olhos verdes, pele menos escura que da maioria aqui, e ela me fulminou com os olhos: “Sou negra”!

Com a história do apartheid em evidência por causa da copa, acabam por falar que negros continuam a se separar dos brancos, ou têm mágoa. Não posso condensar todos os sentimentos aqui de Angola, mas de fato, a pele branca ou mais clara, lembra o colonizador.

A grande maioria das pessoas aqui é negra. E na rua chamamos atenção. Percebem que somos estrangeiras e reagem de diferentes maneiras.

Aqui, posso entender melhor como minha mãe, negra e nordestina se sentia há 25 anos, quando chegou em Joinville, ainda de maioria germânica, e chamava atenção pela aparência física. Só que no nosso caso saímos da zona de conforto, do perfil classe média, mestiço, brasileiras comuns. Passamos a destoar por lembrar um ar de superioridade que não temos, mas cor lembra ou simplesmente o diferente, que chama atenção. Não é o tempo todo, mas com freqüência pra me fazer rir e às vezes irritar.

Hoje passamos por duas situações. Uma engraçada:

Passávamos pela rua e disseram: “Belas portuguesas, estão de volta”!

A outra situação foi frustrante:

No fim da tarde, depois de caminhar o dia todo, ouvi de um menino que deve ter no máximo 17 anos:

“Vai estragar o país”.

Incrédula, olhei pra ele e mirando bem nos meus olhos ele disse de novo:

“Vai estragar o país”.

Fiquei furiosa. Mas adiantaria comprar briga na rua?

Eu queria dizer que não é assim que se dá a resposta a séculos de humilhação, que estou ao lado dele, por que sou afrodescendente, porque abomino qualquer segregação aos negros e todos os desmandos que fizeram e fazem por toda a África.

Mas também queria dizer que sou contra ele, porque tenho repugnância por quem faça qualquer distinção ou pré-julgamento pela cor da pele de alguém.

Calma, gente! Temos amigos negros, muitas pessoas nos tratam bem pelas ruas. Só destaquei esses fatos porque me surpreendem. E me irrito e me assusto, ainda que o preconceito venha de um menino de só 17 anos, talvez por isso mesmo.


Joana Neitsch

sábado, 10 de julho de 2010

Pintores Centro de Acolhimento

Em meio a tantas histórias tristes, há um encantador estúdio de pintura, improvisado em um dos galpões do Centro de Acolhimento para o Projeto de Meninos Pintores. Participa quem quiser, mas é preciso levar a sério. Oito meninos passam a maior parte do tempo ali, orientados por Christian, nome artístico de Carlos, 17 anos, que já morou no Centro, hoje mora com a tia. O jovem transmite aos aprendizes as técnicas que aprendeu sozinho e em um curso que não pôde concluir, porque o professor foi embora.
Agora os meninos estão aprendendo retratos. Isaac João, de 13 anos, se debruça sobre a contracapa de um caderno escolar de onde tira a imagem do presidente para ampliar em uma folha de papel A3. Ele é um dos meninos acusados de feitiçaria. Isaac, que sonha em ser artista plástico, explica um dos seus quadros:
“Um corpo que carrega uma bola. A bola é o mundo e Angola está ali dentro. Angola está em paz. Se ele deixar a bola cair, acaba a paz. A bola está pesada e ele está cansado, por isso está curvado. Mas não quer deixar a bola cair. As gotas que saem da sua cabeça são lágrimas”.
Com a ajuda de voluntárias Renata e Eliane, os Meninos Pintores fizeram exposição shopping e deram entrevista a jornais da cidade. Christian recebeu a encomenda de vários retratos. Do dinheiro que recebe, metade fica para a compra de materiais para a oficina. Os próprios meninos saem para comprar e negociar as tintas e papeis.

Meninos feiticeiros


A brasileira Renata, que mora em Luanda há seis meses, nos levou para conhecer o Centro de Acolhimento Arnaldo Janssen , que atende 130 meninos com até 18 anos. Criado há 15 anos, no início o centro tinha como principal foco atender órfãos de guerra. Hoje o maior motivo para as crianças estarem lá é a pobreza e a ignorância.

A pobreza dispensa explicações. A ignorância é evidente no fato de, em pleno século XXI, crianças serem espancadas, ameaçadas de morte a ponto de fugirem de suas casa por serem acusadas de feitiçaria. A irmã Rosa, responsável pelo centro, nos explicou que muitas famílias acreditam que meninos muito agitados, temperamentais ou até mesmo inteligentes acima da média são acusados de ser feiticeiros e por isso vão parar nas ruas, onde assistentes sociais os encontram.

Por mais que essa prática esteja ligada a tradições milenares é revoltante ver a humilhação e abandono por que passam essas criança. Alguns chegam a se convencer que são feiticeiros mesmo e não merecem estar no seio da família, outros querem voltar e são renegados quando se tenta uma mediação do Centro com a família. Pior ainda é saber que a maioria das famílias são cristãs e já abandonaram muitas das práticas religiosas de seus antepassados, mas na hora de atingir as crianças são tão devotas às antigas crenças. Sábio, Seba que diz que “as pessoas buscam saída para sua miséria colocando a culpa nos miúdos”.


Joana Neitsch