domingo, 12 de setembro de 2010

Paradas de sucesso nas candongas

Duas letras que não saem de nossas cabeças. As músicas falam muito do cotidiano de Luanda e fazem sentir saudades de pegar candonga com o som no último volume.










Juliana

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cardápio em Angola

Uma das perguntas que mais nos fazem sobre Angola é o que comíamos lá.

Pois bem, come-se bastante arroz e feijão, mas o feijão é branco e cozido com óleo de palma (como chamam o azeite de dendê). No início achei gostoso, mas logo foi enjoando, porque é pesado e, para mim, só dá para comer de vez em quando mesmo.

A grande estrela da culinária angolana é o funje. É um prato simples: água e farinha de bombo (mandioca/aipim) ou de milho e podem dizer que é um pirão. Só que não é feito em um pratinho ou em uma panelinha. As mulheres sentam no chão e mexem aquele panelão por um bom tempo até que fique no ponto. A impressão que dá é que tem uma goma junto.

Eu já tinha provado funje em uma festa angolana aqui no Brasil, antes de ir para Angola, e não gostei, nem desgostei. Lá, minha primeira experiência foi em um restaurante à quilo, um dos únicos de lá e com preço razoável. Coloquei um punhado com arroz, salada e frango ensopado, mas não gostei e deixei de canto.

Depois me disseram que não se come funje com arroz. “Não combina!”, insistia Sebá. Acho que essa não é a preocupação dele, mas no aspecto nutricional seria exagero mesmo comer os dois, já que ambos são fontes de carboidrato.

A graça do funje está molho que colocamos por cima, geralmente de peixe. Depois, nosso amigo Kota 50 me explicou que não se mastiga o funje e sim engole direto direto. Foi uma sensação engraçada, mas mesmo assim nãoficou delicioso para mim.

Em uma festa provei o calulu de peixe. É como um patê, com couve bem picadinha e com peixe tudo picadinho.

Comem muita muita mandioca, batata doce, alimentos que temos no brasil. mas que, pelo menos aqui em Floripa, não observo as pessoas consumirem sempre.

Na rua vendem mandioca e banana assada. Também tem várias senhoras com umas churasqueirinhas a assar coxas de frango e fritar ovos. No meio da muvuca,vão preparando e colocando de canto, até que venham os clientes. Mas não provamos nada que era vendido na rua, a não ser frutas das zungueiras.


Provamos o delicioso peixe assado na Chicala, região famosa pelos pratos que são servidos lá. Foi uma recomendação que nos fizeram antes de chegarmos a Luanda e que fomos conhecer. Peixe com farinha e um mollho de cebola para acompanhar. Simples e delicioso.

Confesso que também comemos Bob’s. Muito mais caro que aqui. Uma lanche completo sai cerca de US$ 16,00 (quase 30 reais!). É menos gostoso que aqui, para quem gosta de fast-food. Lá não tem Mac Donalds, então o colonialismo culinário norte-americano vem via franquia brasileira. E confesso que o milkshake de Ovomaltine me fez lembrar de casa.

Joana Neitsch

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Congolenses

O mercado dos Congolenses é outro local de distribuição das mercadorias que chegam de fora. Nada comparado ao mercado Roque Santeiro, nem mesmo parecido. Na verdade, é apenas uma rua de chão batido, perpendicular a uma avenida muito movimentada. Lá é possível encontrar zungueiras (como são chamadas as vendedoras de calçada) vendendo cremes, xampú, frutas, verduras, talheres, calçados.. comprados em armazéns da região e mesmo no Roque. Esse foi um dos destinos de um executivo brasileiro, gerente financeiro da Brasil Foods na África, por conta de reclamações de clientes devido à maneira como os alimentos estão sendo vendidos.

Conversar com as zungueiras não é fácil. E não é porque elas não queiram falar. Gomes teve que ser tradutor de português brasileiro para português angolano, a única vez que aconteceu isso em Luanda. Apesar do nome congolenses, as pessoas que moram nessa região não nasceram no Congo. Eles moravam na fronteira com esse país. Por conta de conflitos foram retirados de lá e o governo angolano colocou-os nesse bairro.

Outro problema é que, enquanto os vendedores te dão atenção, estão de olho na chegada da polícia que os expulsa e leva toda a mercadoria. Tirar as vendedoras das ruas é uma das medidas de “higienização” do governo. A polícia passou, deu um susto, mas não fez nada dessa vez.

Protegida pelas grades de um condomínio antigo na mesma rua, Lorença Francisco, 37 anos, há 15 é quingla - compra e vende dólares - além de saldo para telemóvel. Já foi presa uma vez, ficou três dias, até que pagou fiança e foi liberada junto com seu dinheiro que sobrou. Ela adora roupas brasileiras, mas pagar 30 dólares por uma blusa não dá, “então compro as de 300 kwanzas”.

O terreno do condomínio formado por dois prédios antigos e semi cercado por grades é que abrigava todos os comerciantes da região. Mas as reclamações do síndico fez com que quase todos fossem colocados para fora.

Além das quinglas, como Lorença, os meninos que fazem as unhas deles e delas também se instalam seus banquinhos ali. Se as mulheres dominam a zunga, são os homens que fazem o serviço de manicure. Severino, 18 anos, está no ramo há seis. Cobra 300 kwanzas para colocar unhas postiças e pinta-las. Nos salões de beleza, cobra-se dez vezes mais. Vanda Pereira, que quer estudar Informática no Brasil, prefere vir até os Congolenses: “É mais barato e eles não acham ruim quando pedimos para ajeitar se não ficou bom, as mulheres já fazem cara feia”.


Juliana


Fotos: Do Porto para as ruas de Luanda: nenhum problema com o comércio informal

Lorença, protegida da polícia pelas grades.

Crédito: Juliana


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Roque



O mercado do Roque Santeiro era o lugar que mais ouvíamos falar antes de ir para Luanda, não podíamos voltar sem conhecê-lo. Esse é o maior mercado ao ar livre da Angola, um dos maiores do mundo e teve o nome inspirado na novela brasileira. A maioria dos brasileiros que conhecemos em Angola nunca foi ao Roque e também há angolanos que evitam e não gostam de ir para lá.

Na véspera, Mavanda, namorada do Seba, nos descreveu com minúcias os quatro assaltos que a mãe dela sofreu no mercado. Com tanto terrorismo acabamos deixando a máquina fotográfica em casa e na última hora preferi deixar a aliança também. Fico me perguntando até que ponto isso é verdade, pois também há estrangeiros que vêm ao Brasil e ouvem avisos desse tipo.Mas dizer perigoso é um adjetivo um tanto simplista para um universo que tem lá. Se em Luanda tudo parece visto com uma lupa, sejam encantos ou problemas, no Roque a lupa amplia-se ainda mais.

Desafiamos o Seba: ou ele nos levaria ou iríamos sozinhas. Adivinhem o que o cuidadoso anfitrião fez?

Na chegada, a vista que temos lá embaixo milhares de barracas com teto de lona ou do material que houver disponível. Descemos a pirambeira e na maior parte dos corredores ou ruelas é preciso andar em fila indiana. Chitãzinho e Xororó foi a primeira música que ouvimos. Muita gente, gritaria e correria, como muitas feiras populares que devem haver pelo mundo (o mais próximo disso que eu tinha ido era o Beco da Poeira em Fortaleza). Mas o que impressiona no Roque é o tamanho e a variedade.

Lá encontramos tecidos africanos e todo tipo de produto que um bom camélodramo oferece: bolsas, brinquedos, doces, cosméticos, tênis, eletrônicos marcas norte-americanas made in china a dar com o pé. Tem também fato (como chamam os ternos) e gravatas, vestidos longos de festa. Toda a cor e cheiro das feiras com frutas e verduras. E materiais de construção. Congelados e enlatados. Não nos ofereceram, nem vimos, mas quem procura serviços sexuais e drogas, para consumir ali mesmo, também encontra. Tem muito ouro e bijuteria. Bacias coloridas. O chão é terra, tomate espatifado, prego, pilha, farinha do fungi, pegadas de Havainas...

Fomos rápido. O Seba disse que não dava pra ficarmos parados muito tempo em um só lugar e dar mole para os assaltantes. Éramos a únicas pulas ali. Imagino que a cara de estranhamento que vi neles não devia ser muito diferente da minha. Nos achavam fora de lugar e eu tentava entender tantos mundos naquele lugar. Impossível eliminar minha mentalidade de estrangeira, fico vendo tudo com curiosidade, até poesia. Aí me chacoalho e me dou conta que é o sempre deles. Uma luta por sobrevivência. Se agacham ali mesmo pra comer fungi com peixe. Em uns cantos das barracas mulheres gordas cochilam. Em outros mães fazem as tranças nas filhas. Nos botecos improvisados jovens ficam azarando e se embebedam.


Ali também é um dos pontos de abastecimento das zungueiras. Compram em atacado os produtos para venderem nas calçadas. Muitos produtos que exportadores engravatados, negociam nas salas limpas e frescas de ar-condicionado são escoados por ali. E muita gente esperta que roda Luanda toda a procurar melhores preços, sabe que há produtos que só tem ali no Roque. Não adianta ir a outras feiras, nem a mercados, nem mesmo ao shopping. Compramos panos africanos coloridos feitos na China. Angola não tem indústria têxtil e os tecidos que vêm do Congo, que é ali ao lado, são mais caros que os chineses. Saiu muita tinta na primeira lavagem e o tecido ficou mais macio, vamos ver nas próximas.


Agora o Roque está de mudança. Vai para o novo mercado de Panguila, a 18 quilômetros de Luanda. Se vai dar para todos os vendedores irem para lá e se todo esse universo também vai ser transferido, só quando gente voltar a Angola para ver.




Foto: Vendedora de carvão no Roque.

Crédito: João Fellet - Jornalista, faz parte do coletivo Tás a ver e vai lançar um livro sobre sua experiência em Angola e outros países africanos no próximo ano. Também nos deu boas dicas antes de viajarmos.


Joana Neitsch