Mostrando postagens com marcador crianças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crianças. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de agosto de 2010

Nossas queridas miúdas


Foram essas duas criaturinhas que nos acordaram diariamente aos berros das brincadeiras, dos choros ou com uma suave abertura da porta e a pergunta: "Já acordaram?". Às vezes invadiam o quarto pedindo: "Dá-me teu chocolate...dá-me tua bolacha", também com abraços e pulos na cama. Outras vezes pedíamos para dormir mais um pouco e elas saíam para brincar.

A São (Conceição), mãe delas, acorda cinco da manhã para trabalhar na recepção da British Petroleum (BP) e as miúdas não aguentam muito mais tempo na cama. Raina tem três aninhos e é um furacão, esperta que só. Mexia em todas as gavetas e perguntava o que era tudo, desodorante, creme, absorvente. E pedia: "dá só...". Riu muito da minha meia furada. Outro dia, quando viu outra, sem rasgos, avisou: "Vai furar, vai furar". Quando chegamos em casa mais tarde, exaustas, tiro meu sapato e ... ela acertou!

Janina, de cinco, é mais discreta e sabe a hora de se acalmar. Mas está longe da apatia. Comanda muito bem as brincadeiras. Ela já tem idade para ir à escola, mas o horário de trabalho da mãe dificulta a frequência ao colégio. Mesmo assim, ela sempre pede que lhe passem tarefas e sente falta das aulas.

As duas estão o tempo todo cantando e dançando. Além das cantigas infantis, sempre lembravam de um grito de torcida angolano para o Campeonato Africano das Nações (CAN) que não consegui achar o restante da letra na internet e que elas também não sabiam, mas continuavam harmoniosamente. "Angôôôôôôôla... palaaaanca". Algumas vezes tentei acompanhá-las na dança, mas, com toda minha habilidade, participava só quando era de roda. Com esse tamanho, elas já têm todo o jingado do semba, kizomba e logo chegam no kuduro.
Foto: A dona da casa e suas meninas. Crédito: Jô




Juliana Passos

sábado, 10 de julho de 2010

Pintores Centro de Acolhimento

Em meio a tantas histórias tristes, há um encantador estúdio de pintura, improvisado em um dos galpões do Centro de Acolhimento para o Projeto de Meninos Pintores. Participa quem quiser, mas é preciso levar a sério. Oito meninos passam a maior parte do tempo ali, orientados por Christian, nome artístico de Carlos, 17 anos, que já morou no Centro, hoje mora com a tia. O jovem transmite aos aprendizes as técnicas que aprendeu sozinho e em um curso que não pôde concluir, porque o professor foi embora.
Agora os meninos estão aprendendo retratos. Isaac João, de 13 anos, se debruça sobre a contracapa de um caderno escolar de onde tira a imagem do presidente para ampliar em uma folha de papel A3. Ele é um dos meninos acusados de feitiçaria. Isaac, que sonha em ser artista plástico, explica um dos seus quadros:
“Um corpo que carrega uma bola. A bola é o mundo e Angola está ali dentro. Angola está em paz. Se ele deixar a bola cair, acaba a paz. A bola está pesada e ele está cansado, por isso está curvado. Mas não quer deixar a bola cair. As gotas que saem da sua cabeça são lágrimas”.
Com a ajuda de voluntárias Renata e Eliane, os Meninos Pintores fizeram exposição shopping e deram entrevista a jornais da cidade. Christian recebeu a encomenda de vários retratos. Do dinheiro que recebe, metade fica para a compra de materiais para a oficina. Os próprios meninos saem para comprar e negociar as tintas e papeis.