terça-feira, 6 de julho de 2010

A famosa Praia do Bispo

Tem lugares que a gente sonha conhecer de tanto ver em fotos e ouvir falar. Tem aqueles desejos pessoais, conhecer a terra da mãe ou da avó ou um lugar que um amigo foi e voltou falando tão empolgado. A Praia do Bispo estava em meu imaginário desde que o sonho de Luanda começou e fui alimentá-lo nos livros do escritor angolano contemporâneo Ondjaki, que tive oportunidade de conhecer pessoalmente na Ufsc. O desejo de ir a esse lugar vinha de um encanto pessoal e, ao mesmo tempo, na curiosidade de ver o local escolhido para guardar os restos mortais do Presidente Agostinho Neto, que assumiu logo após a independência de Angola, em 1975 e ficou no poder até 1979, quando faleceu.

Nos livros Bom dia Camaradas e Avó Dezanove, o escritor narra as brincadeiras dos meninos na Praia do Bispo, da construção do Mausóleu, feita pelos soviéticos. Mistura a ilusão das brincadeiras de criança e questões políticas do jovem país que se construía, sob influência do regime socialista.

Na quarta tivemos oportunidade de ir à praia do Bispo. Já era noite e o Mausoléu, que tem uma torre que se vê de longe, era uma sombra na escuridão. Há vários postes de iluminação pública, mas estavam todos apagados. A luz na rua vinha das casas e dos carros. O bairro tem construções portuguesas grandes e bem conservadas e fica aos pés do morro bem iluminado, que abriga a casa do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.

Teremos que voltar outro dia para ver melhor o Mausoléu e fazer uma foto. Não houve decepção porque estávamos com o Gomes, que morou ali na infância e veio contando as suas histórias. Foi como se um dos meninos do livro do Ondjaki estivesse ali a nos contar suas peripécias de infância. Mostrou a casa do vizinho general que implicava com a música alta, encontrou vários “gajos que conhece desde miúdo” e indicou os mercados mais antigos e padaria de uma brasileira casada com um angolano que, segundo ele, fornece os pães do presidente.


Joana Neitsch

sábado, 3 de julho de 2010

Passeio


Atravessamos a rua correndo, como Seba sempre faz, e de repente estávamos dentro de uma candonga pela primeira vez. Foi tudo muito rápido, o trajeto também. Acho que foi para termos uma pequena emoção de andarmos em uma dessas vans azul com branco que lotam a cidade e são o principal meio de transporte coletivo da cidade. “Candonga” foi o nome que aprendemos ainda no Brasil, mas a maioria dos angolanos aqui chamam de táxi, apesar de haver um poucos carros de táxi, daqueles que estamos habituadas.

Vimos uma zungueira (como são chamadas as vendedoras de calçada daqui) que vendia morangos e a Jô foi lá correndo comprar. Agora há pouco tirou várias fotos para poder mostrar o quanto eles são bonitos. Também são muito doces e não parecem turbinados de agrotóxico, difícil de encontrar assim no Brasil. Foram mil kuanzas pela caixinha, vinda da província de Lubango, o equivalente a 10 dólares. Pensamos que a vendedora tinha feito um preço mais alto para as gringas, mas depois nos confirmaram que é esse o preço mesmo.

No caminho de casa ele pegou o rumo do seu escritório e nós andamos sozinhas pela cidade pela primeira vez. Não foi um trajeto muito longo, menos de dez minutos na verdade. Mas nosso anfitrião é quase um pai de tão cuidadoso, sempre nos precavendo e tentando acompanhar ao máximo.

Tinha uma garota pedindo ajuda para atravessar a rua. Ficamos na dúvida, mas um policial nos fez sinal do quartel para que a ajudássemos. A Jô tomou a menina pela mão e cruzamos a rua. Qualquer travessia aqui é uma aventura, podem surgir motos do nada ou carros, fazendo ultrapassagens doidas.

Às vezes ficamos com uns receios bobos longe de casa, as brancas cruzando a rua com a menina negra. Besteira, foi tão rápido. O que poderia acontecer? A menina, disse que ali tava bom, pegou uns morangos, disse obrigada e foi, com a mochila nas costas e vestida em seu collant cor-de- rosa bebê e uma bermuda jeans. Do outro lado da rua acenamos.


Todas as influências

Dia desses, em um cochilo de depois do almoço, achei que tava tendo um pesadelo:
- Jú, impressão minha ou é o Rebolation tocando ali na rua?
- Não, é uma música daqui mesmo.
- Ah, tá..

Minutos depois:

- Jô, é Rebolation mesmo.

Melhor virar pro lado e voltar a dormir.

Pelo menos hoje à noite o hit da vizinhança foi:

"Sou feliz, por isso estou aqui,
Também quero viajar nesse balãoooo"

Viva o Balão Mágico!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Torcida brasileira em Angola


O jogo do Brasil contra o Chile nos serviu de pretexto para conhecer os primeiros brasileiros em Luanda. Sorte foi que Tucho, angolano que morou durante oito anos no Brasil, lembrou antes e combinou com uma amiga brasileira para irmos assistir ao jogo na casa onde ela mora.

A casa tem dois andares e sete quartos. A sala espaçosa tem três ambientes. Há churrasqueira e piscina em cada casa do condomínio, além da do clube que também tem quadra de tênis. Nem o monumento de Agostinho Neto tem tanta água assim. O chafariz que tinha em volta de sua estátua foi desativado pela constante falta d’água na cidade.

Essa é a casa de passagem de funcionários de uma empresa de mineração que trabalham nas províncias do interior. Lá estavam quatro brasileiros que nos esperavam com petiscos e um telão improvisado na sala com um datashow.

Em terras estrangeiras todos amam o Brasil, em tempo de copa o nacionalismo fica admirável. Mal nos conhecemos e já tínhamos muito em comum, só pelo fato de sermos brasileiros. Todos estavam achando a partida morna e deram mais atenção às nossas perguntas no início do jogo. O final, nós duas nem vimos, estávamos conversando com a Valéria, única mulher da casa. Só ouvimos comemorações de outras casas do condomínio, onde também deve haver brasileiros.

Por mais que os angolanos gostem muito dos brasileiros, se engana quem pensa que eles torcem pro Brasil efusivamente. Com muito custo fizemos o Seba “vestir” a bandeira do Brasil, amarrou nas costas e dissemos que ele foi nosso amuleto. A maioria aqui torce por Gana, representante africano que chegou até aqui.

Hoje de manhã , o Gomes, tio do Seba mais novo que ele (tem uns 24 anos) que mora aqui também, disse que não gostou da derrota de Portugal. Questionado se torce pelos tugas (como chamam os portugueses por aqui) que vieram aqui exploraram e depois abandonaram, ele disse: “Tudo passa nessa vida”. A reação à campanha para que ele torça pelo Brasil, por ser um país que fala a mesma língua, que também foi explorado pelos tugas e que tem chances de ganhar, foi: “Tão a querer nos subordinar”?


Jô e Jú